SÉRIE 180 QUESTÕES COMENTADAS DE PSICOLOGIA

QUESTÃO 06. (ACADEPOL – MG / 2013) Como Freud e Lacan consideram a questão do mecanismo, análogo à repressão, por cujo intermédio o ego se desliga do mundo externo?

 

A) Freud e Lacan consideram esse mecanismo como recusa perversa da Lei.

B) Freud aponta para uma perspectiva estrutural e Lacan chama de foraclusão.

C) Freud chama esse novo mecanismo de recalque e Lacan afirma que o recalque reflete o conflito do ego com a realidade.

D) Freud desenvolve o conceito de separação a partir desse novo mecanismo e Lacan associa-o aos conflitos sociais e externos.

COMENTÁRIO

O enunciado da questão faz referência ao mecanismo de recusa/rejeição da realidade, que ocorre tanto na neurose, quanto na psicose.

 

Em “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose”, Freud afirma que tanto na neurose quanto na psicose existe uma perturbação da relação do sujeito com a realidade:

 

“Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose ele é remodelado... a neurose não repudia a realidade, apenas a ignora: a psicose a repudia e tenta substituí-la”. (Freud, 1924, p. 231)

 

A patologia neurótica se caracteriza pelo recalque do desejo durante o Complexo de Édipo. O neurótico não tenta abrandar a castração: a castração existe, mas ele tenta fazer com que quem seja castrado seja o outro e não ele. É o outro que fica no lugar da falta.

 

Na patologia psicótica há uma rejeição da realidade e do Complexo de Édipo. Os delírios, alucinações e depressões são uma tentativa frustrada de dar sentido e lógica a uma visão de mundo particular, ocupando o lugar da fissura na relação do eu com o mundo. O sujeito cria uma nova realidade que é constituída de acordo com os impulsos desejosos do id.

 

O ponto central da observação de Freud está na constatação de que, em ambas as estruturas, o mais importante não é a questão relativa à perda da realidade, mas sim os substitutos encontrados frente à castração. Na neurose, o substituto encontrado ocorre via mundo da fantasia; já na psicose, os substitutos são delírio e alucinação.

 

Lacan, por sua vez, considera a recusa/rejeição da realidade o mecanismo específico da estrutura psicótica, nomeado por ele como a foraclusão do nome-do-pai.

 

A partir da análise de Freud sobre as formações inconscientes (lapsos, sonhos e jogos de palavras), Lacan formulou sua hipótese central de que o inconsciente é estruturado como linguagem. A capacidade humana de atribuir significação ocorre a partir do momento em que o sujeito adentra a função simbólica e esta inserção ocorre por intermédio da vivência do Complexo de Édipo.

 

Durante a estruturação da personalidade, a criança inicialmente não está inserida no simbólico e seu contato com o mundo ocorre por intermédio da mãe, que identifica o filho como objeto de seu desejo e o sujeita às suas escolhas. Existe uma vivência simbiótica, em que a criança tem a experiência de ser cuidada por completo e atendida em suas necessidades por aquela que lhe possibilita uma experiência de completude e onipotência. Este significante inicial atribuído pela mãe vai marcar a identidade do sujeito e seu desenvolvimento mental.  

 

O segundo tempo lógico ocorre com a entrada de um terceiro que introduz a lei da interdição, mostrando à criança a existência do Outro e marcando simbolicamente o fim da ilusória relação de completude e onipotência com a mãe. Neste momento aparece a instância paterna como metáfora do pai – o nome-do-pai. Esta instância é marcada pelo discurso da mãe, demonstrando para a criança que o desejo da mãe se encontra em outro lugar e que ela também é submetida a uma lei.

 

A instância paterna não precisa estar associada a um pai concreto, mas a um discurso ou situação que seja capaz de demonstrar simbolicamente à criança que existem outros objetos a serem desejados. O nome-do-pai representa tudo o que marca para a criança a ausência da mãe. Por exemplo, quando a mãe precisa deixar a criança para ir trabalhar.

 

Deste modo, enquanto no primeiro tempo lógico o Outro é a mãe, a instauração do Nome-do-Pai é o que vem barrar o Outro onipotente e absoluto, inaugurando a entrada da criança na ordem simbólica.

Quando Lacan afirma que a foraclusão é o mecanismo da psicose, o que devemos compreender é que a rejeição do nome-do-pai implica que o sujeito não foi submetido à castração simbólica do processo edipiano. Ou seja, o sujeito psicótico é aquele que durante a vivência do Complexo de Édipo não sofreu a castração simbólica e, portanto, não desenvolveu a capacidade de simbolizar. A não inscrição do significante no Outro resulta nos distúrbios da linguagem e nas alucinações, que marcam a psicose.

 

Portanto, quando o quesito em análise refere-se à questão do mecanismo, análogo à repressão, por cujo intermédio o ego se desliga do mundo externo, a resposta correta é aquela que faz referência à estrutura psicótica, cujo mecanismo fundamental é a foraclusão.

GABARITO: (B) Freud aponta para uma perspectiva estrutural e Lacan chama de foraclusão.         

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